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após trabalhar até as 23h, no dia seguinte, caminhando para o trabalho, fui cantarolando uma música que surgiu no chuveiro e foi tomando forma aos poucos. Imagino ela como uma música estilo mangue beat, meio Otto, ou doida tipo Arnaldo Antunes.
Trabalho
Que trabalho que dá
ter trabalho
Que trabalho que dá
dinheiro?
Que trabalho que dá
uma folga?
Meu trabalho só me dá
trabalho
das oito às seis
de segunda à sexta
sem contar a hora extra
no fim de semana
tem que pôr o trabalho em dia
e todo dia vira dia
de trabalho
meus filhos crescem sem me ver
eles só ouvem falar
que o papai foi trabalhar
o trabalho enobrece
mas tem algo de errado comigo
trabalho pra burro
não fiquei nobre nem rico
o dinheiro do meu trabalho
vai todo pelo ralo
por só cantar no chuveiro
é que quando saio de lá
já tá na hora de trabalhar
- Luiz Carioca
esse é um poema que fiz num exercício que tinha como proposta se basear no filme Corra Lola corra. Acho q fui mais influenciado pelo poema Ruas de Maiakoviski do que pelo filme, mas blz.
Vida em trânsito
Corria
tudo bem
corria calmo
cada passo tranqüilo
corria
conforme
o sinal abria
de repente
a contra mão
contra mim
contra tudo
retorno
retomo
o fôlego
em meio à fumaça
correndo risco
corria arisco
onde buzinas e bueiros proclamam a demência
num caos
anunciado
por uma verde cegueira
que não brota
nem floresce
corro
morro
como
motor
no trânsito
congelado pela frieza das máquinas que já não fazem mais versos
morto-
vivo
Tirando
fino
do destino
vivi
correndo
feito uma bala perdida pedindo colo
- Luiz Carioca
- Mahmud Darwich
Registra-me
sou árabe
o número de minha identidade é cinqüenta mil
tenho oito filhos
e o nono... virá logo depois do verão
vais te irritar por acaso?
registra-me
sou árabe
trabalho com meus companheiros de luta
em uma pedreira
tenho oito filhos
arranco das pedras
o pão, as roupas, os cadernos
e não venho mendigar em sua porta
e não me dobro
diante das lajes de teu umbral
vais te irritar por acaso?
registra-me
sou árabe
meu nome é muito comum
e sou paciente
em um país que ferve de cólera
minhas raízes...
fixadas antes do nascimento dos tempos
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e oliveiras
antes do crescimento vegetal
meu pai... da família do arado
e não dos senhores do Nujub¹
meu avô era camponês
sem árvore genealógica
minha casa
uma cabana de guarda
de canas e ramagens
satisfeito com minha condição
meu nome é muito comum
registra-me
sou árabe
sou árabe
cabelos... negros
olhos... castanhos
sinais particulares
um kuffiah² e uma faixa na cabeça
as palmas ásperas como rochas
arranharam as mãos que estreitam
e amo acima de tudo
o azeite de oliva e o tomilho
meu endereço
sou de um povoado perdido... esquecido
de ruas sem nome
e todos os seus homens... no campo e na pedreira
amam o comunismo
vais te irritar por acaso?
registra-me
sou árabe
tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados
e da terra que cultivava
com meus filhos
e não nos deixaste
nem a nossos descendentes
mais que estes seixos
que nosso governo tomará também
como se diz
vamos!
Escreve
bem no alto da primeira página
que eu não odeio os homens
que eu não agrido ninguém
mas... se me esfomeiam
como a carne de quem me despoja
e cuidado... cuida-te
de minha fome
e minha fúria
1-Célebre tribo da Arábia
2-Elemento de adorno dos palestinos