Brechó do Carioca

Poesias, cotidiano, música, arte em geral, filosofia, desabafos e um pouco de política.

Brechó do Carioca

Poesias, cotidiano, música, arte em geral, filosofia, desabafos e um pouco de política.
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Terra Blog

Arquivo de: Julho 2007

25.07.07

Crise na propaganda

categorias: Social

Não vou falar sobre corte de gasto com agências. Agências que perdem contas. Publicitários que perdem o emprego. A crise que me refiro é um pouco mais subjetiva e ainda mais complicada de se resolver. Depois de três anos sem acompanhar uma filmagem, finalmente eu teria um roteiro filmado, com a minha presença. O cliente era um restaurante de alto padrão. Classe A/B, localizado em Campinas. Sei que a classe A do Brasil come em lugares ainda mais caros e esnobes, mas aquilo para mim, parecia mentira. A média dos pratos estava por volta dos R$ 50. O prato de bacalhau para uma pessoa custava por volta de R$ 80. Logo ao entrar, senti que ali não era um ambiente do qual eu estava acostumado. Somente o buffet de salada me alimentaria por vários dias. Fizemos as primeiras cenas, filmamos os preparos de alguns pratos e vi que eles limpavam a grelha com um bife. Isso mesmo, um bife mal passado era esfregado na grelha para que a sujeira toda saísse nele. Depois era arremessado em um recipiente para ser usado mais tarde, como se ele fosse um pano sujo.

No salão principal, os clientes começavam a chegar para o almoço. Todos muito arrumados. Alguns executivos, casais e famílias. Todos com seu alto nível estampado em sua fronte. Os bifes que eram servidos alimentariam facilmente três pessoas, mas é preciso haver desperdício para existir uma demonstração de poder. Vi crianças com pratos de picanha que custam R$ 50 dizendo “mãe, posso comer só a batatinha?”.  Fiquei deprimido. Não porque eu desejava estar no lugar dessas pessoas, mas porque não entendia tanta desigualdade. Não entendia porque tudo aquilo, que entendo como frieza, é tão admirado. Foi como se eu tivesse visto alguém passando fome. Mesmo que eu já esteja acostumado a ver famintos na saída dos restaurantes e padarias, aqueles sorrisos insaciáveis e caríssimos me chocavam. Talvez seja uma inversão de valores, mas eu realmente estava deprimido com tanta alegria e tanta riqueza em uma cidade com a maior desigualdade social do país.

Fui a pé para casa, deprimido. Pensei em milhares de coisas como, religião, revolução, anarquia e budismo. Nada me trouxe uma resposta. Se eu fosse um homem bomba, não resolveria nada. Mataria um monte de bem-nascidos num almoço de uma quarta-feira chuvosa e gorda. E na semana seguinte, dezenas de pessoas vestindo roupas Yves Saint Laurent brancas estariam deitadas no estacionamento do shopping pedindo paz. Mas a desigualdade continuaria para os meus filhos. Cheguei em casa, meu filho estava engatinhando no meio da sala. Ele sorriu pra mim, tive vontade de chorar, escondi isso da minha esposa. Esconderia do mundo todo se não fosse essa necessidade de escrever para não enlouquecer. O que eu ensinaria para o meu filho? Que é isso mesmo? Pessoas jogam comida fora como demonstração de poder e que nada podemos fazer? Eu devo ensinar pra ele que assim é o mundo, que é preciso apenas aprender a ser feliz e viver da melhor maneira possível? Que somos pequenos demais para resolver isso? Ou eu digo para que se revolte? Reivindique o que é daqueles que foram excluídos do rico buffet? Que não se esconda como eu fiz? Que não adianta pedir, deus não vai ajudar? Ainda bem que meu filho apenas sorriu e não me perguntou nada.

Sei que se eu largar da minha profissão, de redator publicitário, antes mesmo do término do meu aviso prévio, outro estará no meu lugar, e eu estarei longe de ter alguma garantia. Não terei a garantia de um novo emprego, nem de que estaria livre desse sistema moedor de pessoas. Onde é preciso passar por cima do que acredita para ser feliz. Essa é a verdade mais incoerente que já conheci. Confesso que não faço idéia da solução. Confesso que continuo deprimido. Essa angústia ainda não gerou frutos para saber qual meu novo passo. Confesso que sou egoísta, e que escrevi para encontrar uma solução pra mim, e não para o mundo.


- Luiz Henrique nascimento 25/07/07
  • criado por  ze_embras criado por ze_embras
  • Postado em 23:00:36

15.07.07

Crônica de bom dia

categorias: Literatura

Acordei e fiquei parado em frente a TV até acordar. Isso me encheu, vi que poderia escrever algo interessante, meu dia tinha que começar logo. Fui ao banheiro para me aliviar, escovei os dentes e quase esqueci de lavar as mãos, mas as lavei, escrevo agora de mãos limpas. Não tomei banho ainda, deixei para depois, queria escrever logo. Vinicius de Moraes me condenaria, como um carioca deixa para trás sua chuveirada matinal, nada acontece antes dela. Talvez ele me perdoe se eu escrever algo bom.

Minha esposa e meu filho viajaram, fiquei sozinho. Não gostei da companhia das propagandas na TV. Me irritei e coloquei um DVD. Me senti melancólico ouvindo Joe Cocker, ele bebia cerveja e eu leite, isso não é justo. Talvez eu precise mesmo é da companhia burra da TV, voltei para as propagandas e clipes de pop music. Passei a tratar a TV como minha lareira eletrônica, como dizia John Lennon. Vi meus e-mails e um professor universitário responde sobre minha poesia. Enviei a ele um e-mail com um poema e várias dúvidas. Como sempre os acadêmicos são enigmáticos, li duas vezes a resposta e não sei até agora se ele gostou ou não do meu poema. Ele me respondeu dos Estados Unidos onde está para visitar os pais. Esse é um fator que encarei como positivo, se realmente ele não gostasse, meu e-mail ficaria perdido pelos states, mais um latino americano clandestino, ilegal e perdido por lá. No fim do e-mail ele disse que podemos marcar um almoço para conversarmos melhor. O que encaro como outro ponto positivo, eu não gostaria nem de ver a cara de um poeta ruim que me incomoda na visita aos meus pais. Chato tudo bem, mas ruim nunca. Acho que vou marcar um almoço, deve ser o melhor jeito de descobrir o que ele quis dizer no e-mail.

O telefone tocou, era um amigo, me convidando para ir ao cemitério. A causa é nobre, mas sou fraco. Hoje tem jogo da seleção brasileira. Ele mesmo me perguntou se faço questão de assistir, confesso que não faço tanta questão quanto se fosse um jogo do Flamengo, mas é a final da Copa América. Brasil e Argentina, acho que não resisto. Comprei até um provolone para fazer de aperitivo enquanto assisto ao jogo. Sou brasileiro e um admirador da Argentina. Tenho até um casaco, desse do tipo agasalho de atleta, com “Argentina” bem grande nas costas e um brasão no peito. Comprei mais por brincadeira, numa liquidação, o do Brasil era muito feio. E como muitos me dizem que tenho cara de argentino, comprei o da Argentina. Como se todos os argentinos tivessem cabelo grande e barba. A rivalidade é forte, as pessoas odeiam me ver com o casaco, confesso que comprei também pra provocar as pessoas. Muitos brasileiros odeiam os argentinos, conheci alguns hippies argentinos, um não valiam uma moeda, outros eram extremamente gente fina, quase fui-me embora para lá temporariamente. Isso sem falar da propaganda deles, bem melhor do que a nossa, seria uma companhia bem melhor agora, não perfeita, mas melhor. E o que falar de Borges e Che Guevara? Não posso senão admirar esse povo. Mas hoje vou estar com a camisa do Brasil, sou brasileiro, sou carioca pô. A argentina é favorita, mas estou confiante, acho que dessa vez o Brasil vai. O casaco vai ficar guardado no armário por umas duas semanas. Comprei-o de brincadeira, mas hoje o jogo é coisa séria e os torcedores de hoje em dia nunca estão para brincadeira.


- Luiz Henrique direto da cabeça sem revisão nem nada
Domingo de inverno com sol - 15/07/2007
  • criado por  ze_embras criado por ze_embras
  • Postado em 11:36:56

05.07.07

MEU TEMPO

categorias: Literatura
- um poema para Thaís

MEU TEMPO

o frio bate
forte
o frio corta
fundo
o frio me faz
sentir falta de você

o tempo
muda

no calor
minha boca
pede água
pede algo
pede a sua
pelo amor de deus

assim
minha boca
seca
sede
a sua

meu tempo
todo
é teu
  • criado por  ze_embras criado por ze_embras
  • Postado em 15:21:23