Brechó do Carioca

Poesias, cotidiano, música, arte em geral, filosofia, desabafos e um pouco de política.

Brechó do Carioca

Poesias, cotidiano, música, arte em geral, filosofia, desabafos e um pouco de política.
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Terra Blog

Categoria: Literatura

02.08.07

agora na íntegra

categorias: Literatura, Social
SAÚDE E ANARQUIA

O mesmo ódio à exploração
que brilha em meus olhos
também se faz nó
na sua garganta
posso ouvir o grito
por debaixo do seu sorriso
o ranger de seus dentes
tocam a mesma música
que ouço nas noites de frio
em nossos passos posso ver
uma marcha em busca de paz
saúde e anarquia


Não siga os patrões
derrube as cercas
destrua as engrenagens
da ordem e do progresso
que moem carne viva
salve a lua, recupere o luar
refém das máquinas
e da artilharia dos postes
arme-se de sonhos
saúde e anarquia


Quebre a direita
siga em frente
por cima da repressão
à esquerda, à esquerda
nas margens dos rios
de pensamentos rasos
semeie liberdade
saúde e anarquia


Siga reto
de cabeça erguida
apague as antigas velas
que derretem a verdade
olhe por cima dos altares
veja que o amor
vai além do próximo
é preciso espetar teu umbigo
e deixar vazar todo egoísmo
abrindo espaço para a igualdade
saúde e anarquia

Siga sólido
como as rochas em seu caminho
mas com a mesma ternura
de um apaixonado em guerra
para não esfriar seu sangue
vermelho e negro
contaminado pela liberdade
na luta por justiça
saúde e anarquia


Siga livre até o fim
e não encontrará ouro
foguetes, naves
ou vida na lua
não encontrará nada
que se possa comprar
nada de posse
mas se encontrará
cercado de vida
saúde e anarquia
  • criado por  ze_embras criado por ze_embras
  • Postado em 22:37:11

15.07.07

Crônica de bom dia

categorias: Literatura

Acordei e fiquei parado em frente a TV até acordar. Isso me encheu, vi que poderia escrever algo interessante, meu dia tinha que começar logo. Fui ao banheiro para me aliviar, escovei os dentes e quase esqueci de lavar as mãos, mas as lavei, escrevo agora de mãos limpas. Não tomei banho ainda, deixei para depois, queria escrever logo. Vinicius de Moraes me condenaria, como um carioca deixa para trás sua chuveirada matinal, nada acontece antes dela. Talvez ele me perdoe se eu escrever algo bom.

Minha esposa e meu filho viajaram, fiquei sozinho. Não gostei da companhia das propagandas na TV. Me irritei e coloquei um DVD. Me senti melancólico ouvindo Joe Cocker, ele bebia cerveja e eu leite, isso não é justo. Talvez eu precise mesmo é da companhia burra da TV, voltei para as propagandas e clipes de pop music. Passei a tratar a TV como minha lareira eletrônica, como dizia John Lennon. Vi meus e-mails e um professor universitário responde sobre minha poesia. Enviei a ele um e-mail com um poema e várias dúvidas. Como sempre os acadêmicos são enigmáticos, li duas vezes a resposta e não sei até agora se ele gostou ou não do meu poema. Ele me respondeu dos Estados Unidos onde está para visitar os pais. Esse é um fator que encarei como positivo, se realmente ele não gostasse, meu e-mail ficaria perdido pelos states, mais um latino americano clandestino, ilegal e perdido por lá. No fim do e-mail ele disse que podemos marcar um almoço para conversarmos melhor. O que encaro como outro ponto positivo, eu não gostaria nem de ver a cara de um poeta ruim que me incomoda na visita aos meus pais. Chato tudo bem, mas ruim nunca. Acho que vou marcar um almoço, deve ser o melhor jeito de descobrir o que ele quis dizer no e-mail.

O telefone tocou, era um amigo, me convidando para ir ao cemitério. A causa é nobre, mas sou fraco. Hoje tem jogo da seleção brasileira. Ele mesmo me perguntou se faço questão de assistir, confesso que não faço tanta questão quanto se fosse um jogo do Flamengo, mas é a final da Copa América. Brasil e Argentina, acho que não resisto. Comprei até um provolone para fazer de aperitivo enquanto assisto ao jogo. Sou brasileiro e um admirador da Argentina. Tenho até um casaco, desse do tipo agasalho de atleta, com “Argentina” bem grande nas costas e um brasão no peito. Comprei mais por brincadeira, numa liquidação, o do Brasil era muito feio. E como muitos me dizem que tenho cara de argentino, comprei o da Argentina. Como se todos os argentinos tivessem cabelo grande e barba. A rivalidade é forte, as pessoas odeiam me ver com o casaco, confesso que comprei também pra provocar as pessoas. Muitos brasileiros odeiam os argentinos, conheci alguns hippies argentinos, um não valiam uma moeda, outros eram extremamente gente fina, quase fui-me embora para lá temporariamente. Isso sem falar da propaganda deles, bem melhor do que a nossa, seria uma companhia bem melhor agora, não perfeita, mas melhor. E o que falar de Borges e Che Guevara? Não posso senão admirar esse povo. Mas hoje vou estar com a camisa do Brasil, sou brasileiro, sou carioca pô. A argentina é favorita, mas estou confiante, acho que dessa vez o Brasil vai. O casaco vai ficar guardado no armário por umas duas semanas. Comprei-o de brincadeira, mas hoje o jogo é coisa séria e os torcedores de hoje em dia nunca estão para brincadeira.


- Luiz Henrique direto da cabeça sem revisão nem nada
Domingo de inverno com sol - 15/07/2007
  • criado por  ze_embras criado por ze_embras
  • Postado em 11:36:56

05.07.07

MEU TEMPO

categorias: Literatura
- um poema para Thaís

MEU TEMPO

o frio bate
forte
o frio corta
fundo
o frio me faz
sentir falta de você

o tempo
muda

no calor
minha boca
pede água
pede algo
pede a sua
pelo amor de deus

assim
minha boca
seca
sede
a sua

meu tempo
todo
é teu
  • criado por  ze_embras criado por ze_embras
  • Postado em 15:21:23

25.05.07

NETWORK

categorias: Literatura

Dia chuvoso em São Paulo. A melhor opção era o metrô. Foi isso que ele fez. Deixou seu carro em casa e pegou o metrô. O dia foi bastante produtivo. Aquela reunião no fim do dia então, rendeu uma nova conta. Era um passo importante para o futuro da sua carreira. Ali devia estar começando uma nova fase da sua vida. Flávio, pensativo, como bom publicitário, sempre antenado às tendências, aproveitou o passeio para observar os outros passageiros. Observar comportamentos, conversas, pessoas.

“Eles me deram três tiros e me jogaram da ponte. Foi o cão do policial que me encontrou no dia seguinte. Depois eu fiquei assim, aleijado. Um deles era o meu cunhado, eu consegui tirar a máscara dele” disse um rapaz moreno, curvado e de mão repuxada conversando com uma senhora que estava sentada ao seu lado. “Então foi por isso que ele atirou em você, pra não reconhecer mais tarde”, respondeu a senhora. “Ele há de encontrar o caminho dele, o que é dele tá guardado.” Essa foi a última frase que Flávio conseguiu ouvir. Quanta desgraça. Não era disso que ele estava precisando.

Mudou seu foco. Olhou para uma mulher bonita que estava de pé ao seu lado. Ela tinha uma aliança na mão e o olhava como um cão que farejava o seu pé. Com um medo, com uma desconfiança. Nos socos do metrô, a mulher se movimentava, e então Flávio pode ver alguns hematomas em seu rosto. Não conseguiu esconder seu olhar de aversão. Disfarçou e olhou para o lado. “Menina, hoje eu fui ruim pro trabalho, tô com uma dor de garganta que não dá nem pra engolir saliva direito. E eles não me dispensaram. Fiquei ruim o dia todo.” Disse uma senhora de uns 60 anos. Se não fosse por esse testemunho, Flávio juraria se tratar de uma aposentada. “Ih, mas hoje é assim mesmo, pra ser dispensada só de ambulância ou carro de funerária. E eles ainda são capazes de dizer – não tinha dia melhor pra morrer não?” falou uma garota nova, dando continuidade à reclamação. “Tchau pra você viu minha filha. Se cuida, eu vou ficar aqui na Sé. Manda um abraço pra sua mãe.” “Pode deixar que eu mando. E se cuida a senhora, vê se melhora hein. Se não melhorar nem vai amanhã trabalhar, vitamina C e cama, viu?”. As duas se despediram sorrindo.

Flávio começou a ficar entediado. Já bastavam seus problemas, não queria ficar ouvindo os problemas alheios. Não viu nenhuma tendência nova. Nenhum grupo de jovens com aparelhos portáteis, gestos ou gírias novas. Só problemas. Resolveu ficar em seus próprios pensamentos. Seu dia havia sido ótimo. Aquela tristeza toda só o levaria para baixo. Não precisava disso. Não podia perder tempo com essas dores-de-cabeça alheias. A partir daquele dia, decidiu valorizar cada minuto do seu dia. Chegando na sua estação, se sentiu agradecido de fugir de tudo aquilo. A porta do metrô lhe abriu uma passagem para fora daquela atmosfera negativa. Todos aqueles problemas transitando no ar, entrando pelas narinas e saindo pelas bocas.

Chegando em casa, sentiu-se feliz por estar em lugar aconchegante, sem cunhados assassinos, e outras desgraças. Sentiu-se bem por deixar todo aquele desgosto para traz. Jantou, tomou banho, checou seus e-mails, fez seu ritual habitual e foi deitar. Amanhã seria o dia seguinte ao triunfo. Ele precisava estar bem disposto para a nova fase da sua vida. Dormiu tranquilamente. O dia estava bonito, sem chuva. Tudo parecia perfeito, a não ser uma dor de garganta que não dava nem pra engolir saliva direito.


- Luiz Carioca


  • criado por  ze_embras criado por ze_embras
  • Postado em 10:43:03

12.04.07

COSTURA

categorias: Literatura, Arte

COSTURA

a costura abriu
dá pra ver um buraco
quando levanto meu braço
nessa vida apertada
suja e mal passada


os sonhos
costurados à mão
nunca ficam iguais
aos da revista
os meus
precisam sempre
de bainha


Luiz Carioca 12/4/07
  • criado por  ze_embras criado por ze_embras
  • Postado em 11:38:39