| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |
| 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
| 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 |
| 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 |
| 29 | 30 | 31 |
FALTA D’ÁGUA
Tomo meu café
preto de desgosto
só de olhar pela janela
de frente para a favela
meu lado esquerdo salta
como quem pula de um prédio
com a pele esticada ao sol
a rasgação de seda e o sal
que tenho que engolir
na falta d’água
a torneira vomita
as últimas gotas
pouco pra sujeira
o bastante pro meu rosto
de resto
como porco
sigo reto
farejando meu caminho
nas ruas
os miseráveis se multiplicam
como num labirinto de espelhos
de Borges
não desespero
espero
que o mundo
mude
e mudo
continuo
levando meu amor ao shopping
para matar a fome
- Luiz Carioca
Com o esquecimento global,
luxo e lixo transformam a Terra em um tomate seco.
- Luiz Carioca
Ditadores
Enforcaram um ditador
Enquanto isso os outros aplaudiam
O homem que falava
No escritório
Logo pela manhã ele sentia a necessidade de mando
Precisava ser temido
Gritava
Falava tudo o que lhe dava vontade
Sem respeitar nenhuma outra vontade
Martelava as palavras, falava alto
Como se falar fosse a maior virtude do homem
Ao fim do dia
Quando cessavam os gritos
Saiam um a um, todos quietos
Até que um dia
Ninguém nunca mais voltou
A vida ainda vale a pena
de carregar o peso
de um sorriso
estampado no rosto
a vida ainda vale o gosto
da lágrima que corre
no cavaco e no chorinho
Ser feliz não é fácil
ser honesto custa caro
para ser sincero
o olho da cara
o troco é pouco
mas felicidade não se compra
e isso eu descobri
depois que saí da sombra
Já me levaram dinheiro
amor e tranqüilidade
mas o samba ninguém me tira
Por isso,
tirei o dia para ouvir samba
- Luiz Carioca